
A primeira posse presidencial a gente nunca esquece. Em 2003, não pude ir a Brasília assistir à posse do presidente Lula em razão de compromissos profissionais. Porém, desta vez, vivendo um – digamos assim – período sabático involuntário, pude vê-lo transmitindo o cargo a Dilma, que assumiu a presidência num dia histórico e e repleto de fortes emoções. A sensação de participar dessa festa da democracia é indescritível. Só estando lá, no meio de brasileiros de todas as idades, gêneros, cores, credos e paixões clubísticas, unidos pelos ideais de democracia e justiça social, para saber. São pessoas que vieram de todas as regiões do país, de carro, de ônibus e de avião.
Nem tudo saiu conforme o que havíamos planejado: eu, minha mulher (Rosa Bittencourt) e nosso amigo Wagner Alcântara Aragão, o Waguinho, – todos jornalistas – tentamos nos credenciar para a cobertura do evento no Palácio do Planalto e no Itamaraty por intermédio do portal de um colega, mas algo saiu errado e ficamos sem as credenciais. No fim, foi até melhor assim, pois pudemos participar, em vez de apenas fazer a cobertura jornalística da festa. A chuva intensa também atrapalhou um pouco, mas não tirou o ânimo e a disposição das dezenas de milhares de pessoas que se reuniram na Esplanada dos Ministérios e na Praça dos Três Poderes.
Grudadas nas grades de proteção dispostas ao longo de toda a Esplanada, as pessoas se acotovelavam na expectativa de ver Dilma desfilar em carro aberto. No entanto, por causa da chuva, o Rolls-Royce Silver Wraith 1952 da Presidência da República, presente da rainha Elisabeth 2.ª ao então presidente Getúlio Vargas, circulou com a capota fechada no trecho entre a Catedral e o Congresso Nacional, para frustração dos espectadores que, como eu, subiram até em árvores para tentar ver a presidente eleita. As tendas temáticas que homenageavam por regiões do país serviram de abrigo ao público quando a chuva engrossou. Logo depois, o mau tempo deu uma trégua e Dilma, acompanhada da filha, Paula, pôde seguir em carro aberto do Congresso ao Palácio do Planalto.
Ao lado do Parlatório, em frente ao Palácio do Planalto, e ao lado do palco montado em frente ao prédio do Supremo Tribunal Federal, telões exibiam imagens de toda a solenidade de posse, geradas pela NBR – com tradução simultânea para a linguagem brasileira de sinais (libras) –, enquanto os equipamentos de som reproduziam o áudio. Havia um problema de sincronismo, já que as imagens chegavam com um certo delay. Mas deu para acompanhar o discurso emocionado de Dilma no plenário da Câmara dos Deputados. Mais tarde, durante a solenidade de transmissão do cargo, os telões ajudaram o público a ver com mais detalhes a subida da rampa, a entrega das faixas, o caloroso abraço de Lula na sucessora, a emoção da agora ex-primeira-dama Marisa Letícia, o discurso no parlatório e a descida da rampa do ex-presidente, que caiu nos braços do povo.
O discurso no Parlatório foi um dos pontos mais emocionantes da posse. Cerca de 30 mil pessoas, segundo a polícia militar, pararam para ver e ouvir ao vivo a mensagem da nova presidente. Houve muito choro, gritos e aplausos. Um eleitor carregava um cartaz com o recado: “Dilma, minha querida rainha, eu te amo”. O carinho era recíproco: nos dois discursos, tanto no Congresso quanto no Parlatório, a presidente dirigiu-se ao povo como “queridos brasileiros” e “queridas brasileiras”.

O protesto contra setores da mídia que fizeram de tudo para tentar impedir a eleição de Dilma também esteve presente na Praça dos Três Poderes. Uma faixa ostentando os logos da TV Globo e das publicações Veja, da Editora Abril, e Folha de S. Paulo, da Empresa Folha da Manhã, e os dizeres “Apesar de vocês, amanhã será outro dia…” foi saudada com efusivos aplausos da multidão.
Em seguida, a chuva voltou e dispersou parte do público. Quem teve disposição para continuar na Praça dos Três Poderes foi premiado com um encontro inusitado e eclético de vozes femininas da MPB: a amapaense (e não acreana, como disse distraidamente o mestre de cerimônias do show, o ator Marcos Frota) Fernanda Takai, vocalista da banda mineira Pato Fu; a fluminense Zélia Duncan, que iniciou a carreira musical em Brasília; a carioca Mart’nália; a paraense Gabi Amarantos, rainha do tecnobrega (seja lá o que isso signifique); e a paraibana Elba Ramalho.
Logo no início do show, o telão exibiu imagens de Lula embarcando no avião presidencial que o levaria a São Paulo. Fernanda pediu que fossem removidas as grades que separavam a plateia do palco – e foi atendida. Foi quase uma repetição do gesto de Oneide DeeDiedrich, frontman das bandas curitibanas Pelebrói Não Sei? e Diedrich e os Marlenes, que mandou derrubar as grades que separavam o público que comprou ingressos antecipados dos demais espectadores do Curitiba Pop Festival de 2004. Um dos pontos altos da apresentação de Fernanda Takai foi Sobre o Tempo, o primeiro grande hit do Pato Fu, do segundo álbum da banda (Gol de Quem?, de 1995).
Antes de deixar o palco, Fernanda fez um dueto com ZD. Elas homenagearam Renato Russo, líder da banda brasiliense Legião Urbana, com Eu Sei. Os tributos não pararam por aí: Zélia cantou O Segundo Sol, de Nando Reis, maior êxito da saudosa Cássia Eller, que também iniciou a carreira musical em Brasília. Alem de músicas próprias como Alma, Zélia também tocou sua versão em português para a clássica The Cathedral Song, da alemã Tanita Tikaram. A canção também fora gravada por Renato, com a letra original, mas com um arranjo diferente. Com Mart’nália, ZD interpretou Saúde, de Rita Lee.
Mesmo apoiada numa muleta, com o pé quebrado, a filha de Martinho da Vila esbanjou energia no palco, apresentando sucessos de sua carreira e outros clássicos, como Aquarela Brasileira, de Silas de Oliveira, samba-enredo do Império Serrano em 1964 regravado por Martinho no LP Maravilha de Cenário, de 1975. A cantora ainda homenageou o pai ao cantar Mulheres, dividindo o palco com Gabi Amarantos, conhecida como a Beyoncé do Pará.
Clássicos da música paraense, como Sinhá Pureza, de Pinduca (sucesso na voz de Eliana Pittman), e Vermelho, de Chico da Silva (gravada por Fafá de Belém), estavam no set list de Gabi. Ao lado de Elba Ramalho, a cantora do Pará interpretou Isto Aqui o que É?, de Ary Barroso. Em forma aos 59 anos, Elba sacudiu a plateia com frevos e forrós, como Banho de Cheiro e Bate Coração.
No fim do show, as cinco cantoras voltaram juntas ao palco para uma jam session com clássicos da música brasileira. Antes do bis, o público presente fez nova manifestação de repúdio ao chamado Partido da Imprensa Golpista (PIG): Marcos Frota arrancou vaias do público e gritos de “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” ao avisar que as imagens do show entrariam ao vivo no Jornal Nacional.
Encerrado o show, Rosa, eu e Waguinho seguimos para o Bar Brahma, tradicional reduto petista da capital federal, onde haveria um sarau da comunidade do blog do jornalista Luis Nassif. Passaram por lá, entre outras celebridades, os jornalistas Mino Carta e Florestan Fernandes Júnior, além de Fernanda Takai, vinda diretamente do Palácio do Itamaraty. Um aparelho de TV no bar exibia imagens da cobertura da posse pela GloboNews. Quando o comentarista Merval Pereira surgiu no vídeo, ouviu-se uma estrondosa vaia. Um dos frequentadores não se conteve e gritou: “Chupa, Merval!”

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