quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Tem ucraniano no samba


Já virou tradição: quinta-feira é dia de samba no BarBaran. Há quase três anos sob o comando de Igor Mazepa Baran, o cinquentenário bar da Sociedade Ucraniana do Brasil (Alameda Augusto Stellfeld, 795, Curitiba) se tornou um ponto de encontro de um público variado, das mais diversas faixas etárias, que se reúne para beber, conversar, degustar pratos e petiscos típicos e, às quintas, cair no samba, com eventuais pitadas de choro, bossa-nova e MPB, do trio Lamara. A ordem é se divertir muito gastando pouco.

Mas nem só de samba vive o BarBaran: toda terça-feira, os aficionados do jazz se reúnem para assistir às performances dos músicos Vinícius Sete Cordas (violão) e Matoso (sax), que contam com a canja de Saul Trumpet (trumpete). A novidade é a Quarta Gourmet: a cada semana, um prato especial estará disponível às quartas-feiras.


“Assumimos o bar, em março de 2008, com uma proposta diferente do que vinha sendo feito até então”, conta Igor. “Resolvemos rejuvenescer o público.” Isso não significa que os frequentadores tradicionais tenham se afastado. Pelo contrário, o bar ficou com um perfil mais eclético.

Mas é mesmo nas noites de samba que a casa está sempre cheia. Numa quinta-feira, o bar chegou a receber o público recorde de 300 pessoas. O sucesso é tão grande que as reservas de mesas são feitas com uma ou até duas semanas de antecedência. Formado por Fernando Lamarão (vocal e violão), Ricardo Oliveira (percussão) e Anderson Alves Pereira (pandeiro), oTrio Lamara garante a sonzeira das 20h30 às 23h30. Por volta das 22h, a animação já contagiou os frequentadores: praticamente ninguém fica parado.



A animação não fica restrita ao lado de dentro do bar: no pátio externo, ao ar livre, muitos frequentadores aproveitam para conversar, enquanto os fumantes dão suas baforadas.

Igor se define como “cria da casa”. Oriundo da Sociedade Ucraniana, ele dançou no grupo folclórico do clube. “Meus avós foram donos do bar no fim dos anos 60, quando era exclusivo para sócios”, lembra. Mesmo sob o comando de novos arrendatários, o acesso continuou restrito até a década de 70. Somente por volta de 1980 é que o bar foi aberto ao público externo. A noite curitibana agradece.



Boa comida é o que não falta no BarBaran. O cardápio inclui, entre outras delícias, o tradicional varenek (o mesmo pierogi dos poloneses, pastel típico com recheios de requeijão ou repolho com batata, acompanhados de molho calabresa, carne ou nata), salsichões alemães vermelhos e brancos (bockwurst e bratwurst), cracóvia (embutido de carne suína), sanduíches (como o pão com bolinho), caldinho de feijão e diversas porções (como batata frita, aipim frito e calabresa).

O BarBaran abre de terça a sexta-feita às 16h e permanece aberto até 1h (exceto às quartas, quando fecha à meia-noite). Nos fins de semana, o bar funciona das 11h às 20h30, quando costuma ser frequentado mais pelo público interno da Sociedade Ucraniana, inclusive as crianças do grupo de dança folclórica. O acesso é pela entrada de veículos na lateral da sede do clube.


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Para todos os gostos

Uma maratona de shows dos mais variados estilos e – o que é melhor – totalmente na faixa. Assim foi a primeira Virada Cultural de Curitiba, um evento que reuniu grandes nomes da MPB, do pop, do rock, do samba e da música instrumental brasileira.

Era impossível ver tudo. Mas pude conferir as performances de Paulinho da Viola, Dadi (pronuncia-se Dádi) Carvalho, Pato Fu, Copacabana Club, Mart’Nália e Erasmo Carlos. Perdi Charme Chulo, Arrigo Barnabé, Hermeto Pascoal e Roberto Carlos. No caso do Rei, não perdi tanto assim, já que ele não tocou sua melhor música, As curvas da estrada de Santos, nem outros sucessos de sua criativa fase soul, como Não vou ficar, de Tim Maia.

Com sua elegância e seu estilo inconfundível, Paulinho cantou seus clássicos do samba e tocou choros instrumentais, ao lado do grupo curitibano Orquestra à Base de Corda. Destaque para Coração leviano, Pecado capital, Foi um rio que passou em minha vida e Choro negro.

Acompanhado da banda curitibana Na Tocaia (Glauco Sölter no baixo, Endrigo Bettega na bateria, Mário Conde na guitarra e Jefferson Sabag no teclado), Dadi relembrou sucessos cantados da Cor do Som, como Suingue, menina, Abri a porta, Semente do Amor e Menino Deus, além de parcerias suas com medalhões da MPB, como Não é proibido, que fez com Marisa Monte e Seu Jorge.

Para quem estava com saudade do bom e velho Pato Fu, a banda mineira mostrou mais uma vez que continua em plena forma no palco. Além de sucessos mais recentes, como Tudo vai ficar bem, parceria de John Ulhoa com Andrea Echeverri (vocalista do Aterciopelados, espécie de Pato Fu colombiano), o grupo resgatou clássicos como a indefectível Sobre o tempo e a divertida Mamãe ama é o meu revólver, trazendo de volta uma pequena amostra da velha irreverência perdida, da qual os fãs das antigas vêm sentindo falta nos últimos anos. A simpática e carismática vocalista Fernanda Takai deixou ainda a promessa de que o Pato Fu deverá trazer em breve a Curitiba o show de seu mais recente álbum, Música de brinquedo.


Velho conhecido da cena independente da capital, o grupo Copacabana Club (foto) mostrou, numa manhã ensolarada de domingo, a energia de seu som, uma mistura dançante de rock e disco music que não deixa ninguém parado. Figurinhas carimbadas de casas como o Wonka Bar, Alec Ventura (vocal e guitarra), Camila Cornelsen (vocal e teclados), Cláudia Bukowski (bateria), Rafa Martins (guitarra) e Tile Douglas (baixo) já são conhecidos nacionalmente e fizeram neste ano sua primeira turnê internacional. A performance no palco da frontwoman Camila, cuja presença por si só já é um espetáculo de encher os olhos, é um dos momentos inesquecíveis da primeira Virada Cultural de Curitiba. Com hits como Just do it e Come back, o Copacabana Club provou mais uma vez que, embora os indies sejam chatos “enquanto tribo”, indie rock pode ser muito legal.

Mas tive que sair um pouco antes do fim do show porque minha digníssima estava ansiosa pelo show da Mart’Nália. Por falha na organização do evento, houve coincidência de horários de vários shows. Nesse caso, a coincidência foi apenas parcial: saímos na última música do Copacabana Club e, ao chegar no Paço da Liberdade, havíamos perdido apenas três ou quatro músicas da filha de Martinho da Vila. Além de músicas próprias, Mart’Nália interpretou canções de outros autores, como Cabide, de Ana Carolina, Don’t worry, be happy, de Bobby McFerrin, e Alegre menina, de Djavan, da trilha sonora da novela Gabriela (1975).

A apresentação do Tremendão marcou o encerramento da Virada. O repertório incluiu clássicos como Mesmo que seja eu, Sou uma criança, não entendo nada e É preciso saber viver, além dos velhos sucessos da jovem guarda. E assim se encerrou a Virada que, esperamos, foi apenas a primeira de uma longa série.

Claro que, nos shows que vi, também senti falta de algumas músicas. Paulinho da Viola poderia ter tocado Argumento, Dadi ficou devendo Zero, de Armandinho Macedo e Fausto Nilo, e a instrumental Frutificar, de seu irmão Mu Carvalho, e o Tremendão se esqueceu de incluir no show Coqueiro verde e Olhar de mangá. Mas, no cômputo geral, o saldo foi positivo.

Pena que não tenha acontecido outra virada, a virada do placar em Volta Redonda, onde meu Mengão, mesmo lutando até o fim, perdeu para o Atlético.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Aldeia global

Estatísticas de visitas a este humilde blog:
Eu gostaria de saber quem é o meu leitor vietnamita.

I love you baby

Por José Carlos Fernandes*


Dilma é uma Ninotchka e tende a despertar pouco afeto. Mas sua dureza amolece quando a imaginamos, guria ainda, com nome falso, de aparelho em aparelho dos movimentos revolucionários. Ou sob 22 impiedosos dias de tortura


Não lembro ao certo quando entendi o que era uma guerrilheira – mas a primeira imagem que me vem à mente é a de Eva Wilma, na novela Roda de Fogo, de 1986, escorregando pela parede ao reencontrar seu torturador, vivido por Cláudio Curi, o enojante Jacinto. A cena é um clássico e deve ter sido a primeira exposição, num produto de massa, dessa figura a qual poucos tributos prestamos e que, se bobear, até chamamos de bandidas.

As guerrilheiras, aliás, custaram a dizer seus nomes, por motivos que só vim a entender anos depois, ao ler Mulheres que foram à luta armada, de Luiz Maklouf Carvalho. Aquelas que desceram aos infernos da ditadura não experimentaram apenas os kilowatts de potência da tortura, mas também o estupro – jovens, estudadas e bem-nascidas, pagavam um extra a seus algozes. Naturalmente, precisaram de muito tempo para conseguir tocar no assunto.

Uma das poucas notícias frescas que recebemos sobre o que aconteceu veio de forma velada, em 1989, no docudrama Que bom te ver viva, da ex-guerrilheira Lúcia Murat, estrelado por uma verborrágica Irene Ravache. Ela não conta tudo – pois não consegue –, mas dá a entender. Nossas guerrilheiras, em suma, não tiveram as glórias de Célia Sanchez – a companheira de Fidel Castro – e pagaram muito caro por suas escolhas. Não raro, as memórias do chumbo as fazem descer pelas paredes, quando não a se atirarem debaixo de trens. Pois é.

No final da década de 1990, estreou com alarde o longa-metragem O que é isso companheiro?, baseado em obra homônima de Fernando Gabeira. O livro trata do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, no Rio de Janeiro, em 1969. Gabeira, sabe-se, arquivou seu passado de guerrilha, entendendo-o como um episódio chauvinista e reacionário que só lhe serviu para puxar nove anos de cana no exílio. Preferiu o desbunde nas Dunas da Gal, em Ipanema, esse sim revolucionário, como expressou em outro livro, O crepúsculo do macho.

Gosto dos dois textos. Mas confesso que me senti desconfortável em ver os humoristas Pedro Cardoso, Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres encabeçando a versão em filme. Fiquei arara – os paladinos da minha infância tinham virado paspalhos ingênuos do TV Pirata. Vera Sílvia, a guerrilheira a quem Fernanda representava, se converte em uma bolchevique tapada que tomava um inocente beijo do rosto por um atentado pequeno burguês.

Por aquela época, andava pelo Brasil o escritor chileno António Skármeta, autor da obra que inspirou O carteiro e o poeta. Branquelo, gorducho e suarento, ele estrebuchou numa coletiva, perguntando como podíamos fazer troça dos jovens que deram a vida pela democracia. Até hoje não sei se essa amnésia tropical é pouco-caso ou estratégia de sobrevivência diante de nossa extensa folha corrida de censuras e ultraje de direitos.

Procuro em antropólogos e sociólogos a resposta. Enquanto não encontro, permaneço a postos com minha paixão adolescente pelas revolucionárias. Nutro saudade do que não vivi e confesso que gostaria de ter estado lá, com elas. Por isso, resisto em meu aparelho de faz de conta.

À Vera Sílvia de Fernanda Torres prefiro a Heloísa de Cláudia Abreu na minissérie Anos Rebeldes, por quem choro a cada vez que escuto Can’t take my eyes of you (“I love you ba­­by”). Continuo achando o encontro entre Carlos Lamarca e Iara Yavelberg o nosso romance mais arretado. Turrão, tomo por heresia Ivete Sangalo cantando as guerrilheiras de “Soy loco por ti América”. Peço a Deus para não esquecer os feitos de gente como Maria Regina de Figueiredo e da nossa Teresa Urban. E, juro, se um dia encontrar Eva Wilma, direi que a torturada Maura Garcez é muito melhor que suas Mulheres de areia.

Quanto a Dilma – uma vez Estela, Wanda, Maria Lúcia, Marina ou Luíza, seus nomes de guerra no Polop, Colina ou VAR Palmares – entendo que a guerrilha é de longe o seu melhor. Imagino-a como um personagem de
Os Carbonários, de Sirkis, um daqueles livros que amei. Relaxo. Depois cantarolo “I love you baby” e só me resta dizer “que bom te ver viva”.

*Texto publicado originalmente na Gazeta do Povo

sábado, 30 de outubro de 2010

Scooby-Doo dos Sete Mares


Quem nunca cantou errado uma música por não ter conseguido entender direito a letra? Então, os chamados virunduns (de “Ouviram do Ipiranga…”, do primeiro verso do Hino Nacional Brasileiro) já foram assunto discutido em sites, teses acadêmicas e em uma reportagem recente da revista Piauí. Pois é, eu também tenho meus virunduns.

Quando ouvi pela primeira vez Aquarela, de Toquinho, tive a convicção de que a letra dizia assim: “Entre as nuvens, vem surgindo um lindo avião quase a engrenar…” O correto é “rosa e grená”, mas naquela época eu nem sabia da existência da cor grená. Pra mim “grená” é como um caipira se refere ao maior clássico do futebol gaúcho. E ficava imaginando como um avião que ainda está quase a engrenar pode surgir entre as nuvens… Se ainda não engrenou, não poderia sequer ter decolado!

E tem aquela da Plebe Rude: “Até quando esperar a plebe ajoelhar esperando a ajuda de um típico Deus” (é “do divino Deus”). Em outro trecho da música, eu pensava que a letra dizia “Eu amo a distribuição”, mas na verdade é “pela má distribuição”. Também tem virundum do Rappa: “A minha alma tá armada e apontada para a cara do sossego e os Spice Boys…” (“pois paz sem voz”).

Mas a imaginação de algumas pessoas é muito criativa. Há quem jure que Djavan cantava: “Ao sair do avião, Zumbi pisou num ímã. Branca é às 3h da manhã.” (“Açaí guardiã, zum de besouro, um ímã. Branca é a tez da manhã”). E o Biquíni Cavadão: “Um dia a mãe do Toninho tomou conta de mim” (“monotonia”).

Há clássicos, como Noite do Prazer, do grupo Brylho, de Cláudio Zoli: “Na madrugada a vitrola rolando um blues, trocando de biquíni sem parar” – é “tocando B.B. King (foto)”. Em Alagados, dos Paralamas, “trenchtown” vira um monte de coisas: “cristal”, “freestyle” ou o que a mente fértil dos ouvintes menos atentos criar. E o Descobridor dos Sete Mares, de Tim Maia, pode se transformar num importante personagem de William Hanna e Joseph Barbera.

Essa facilidade do brasileiro de criar virunduns inspira o surgimento de piadas infames. Conhece aquela do The Doors? “The Doors! Mas mantenha o respeito” (“D2”). E a do The Cure? “The Cure me adianta viver na cidade…” (“De que me adianta…”, em Saudade da Minha Terra, de Goiá) Há ainda a do Zé Geraldo: “É Zé Geraldo! Jogado aos seus pés, eu sou mesmo o Zé Geraldo!” (Exagerado, de Cazuza).

E você, leitor (se é que eu tenho algum), conhece algum virundum? Mande pra cá!

sábado, 24 de outubro de 2009

Direto do frio para o coração do Rio

Um dos programas mais influentes do rádio curitibano acaba de conquistar uma metrópole nacional. Desde ontem, 23 de outubro, a Rádio Roquette Pinto (94,1 MHz), emissora pública mantida pelo governo do Rio, passou a transmitir o RádioCaos todas as sextas, das 22h à meia-noite (na verdade termina mais cedo, por volta das 23h45, porque não há comerciais, apenas chamadas de outros programas).

Para quem não mora em Curitiba – nem no Rio –, o programa pode ser ouvido pela web nos sites da Roquette Pinto ou da Rádio 91 Rock (91,3 MHz), que exibe o programa aos domingos, também das 22h à meia-noite. Alguns programas antigos estão disponíveis no site do próprio RádioCaos, que anda precisando de atualização.

Produzido por Samuel Lago, Rodrigo Barros, Mola Jones e Felipe Hirsch, o programa é anárquico: mistura música boa e música esquisita de todas as épocas, pontuada por poesias, jingles e “reclames retrôs”, trilhas de seriados antigos e muito mais. Você pode ouvir no mesmo módulo Noel Rosa e Frank Zappa, por exemplo.

A longevidade do RádioCaos é prova de que o rádio curitibano vive um bom momento, apesar das contenções de gastos. Atualmente, há quatro emissoras transmitindo música de qualidade em Curitiba: a Lúmen FM (99,5 MHz), emissora educativa da PUC Paraná; a Rádio Mundo Livre (93,9 MHz), do grupo RPC; a Rádio 91 Rock, do Grupo J. Malucelli; e a Paraná Educativa FM, do governo do Paraná.

Falei em contenção de gastos porque em muitos horários a programação dessas rádios é gravada, eliminando a necessidade da presença do locutor, que nem sequer precisa ser substituído por operador, pois hoje, com os softwares de automação, o computador opera a rádio sozinho.

Na linha eclética do RádioCaos, surgiu recentemente na Mundo Livre o Rádio Cambalacho, apresentado aos sábados, às 18h. Vale a pena ouvir. Nessa linha, o Omar Godoy, da Folha de Londrina e dos programas Trajeto Lúmen (Lúmen, segunda a sexta, 18h) e Alma Brasileira (Lúmen, domingo, 12h), produziu e apresentou o Revertério, nos primórdios da rádio da PUC.

Também não faltam programas de indie no rádio curitibano. O rock alternativo está presente no Último Volume (Lúmen, domingo, às 23h), no The Tops (Mundo Livre, terça-feira, 23h) e no 91 Extra Rock (91 Rock, sexta-feira, 23h). No The Tops, além da excelente seleção musical dos produtores e apresentadores Malu Mazza e Rubão, a boa surpresa é a performance da repórter da RPC TV (afiliada da Globo no Paraná) como locutora. A Malu manda muito bem na locução, reforçando o time de vozes femininas da Mundo Livre, que conta com dois ícones do rádio curitibano, a Margot e a Carol.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Andando para trás


No fim dos anos 70 e começo dos 80, a indústria nacional oferecia uma ampla gama de equipamentos modulares de som: pré-amplificadores, amplificadores de potência – ou os dois módulos juntos formando os amplificadores integrados –, sintonizadores (tuners) – que por sua vez poderiam ser unidos aos amplificadores, resultando nos receptores (receivers) –, equalizadores gráficos, reverberadores, mixers, tape-decks, toca-discos e, a partir de 1983, CD players. Eram equipamentos geralmente confiáveis, de marcas como Gradiente, Polyvox, Quasar, Sony, Technics, Cygnus, Philips e CCE, que ofereciam boa qualidade de som. Muitos deles eram produzidos sob licença de fabricantes como JVC e Kenwood. O consumidor poderia montar seu conjunto modular de áudio com equipamentos de diversas procedências, devendo apenas cuidar para verificar se os níveis e a impedância das saídas e respectivas entradas eram compatíveis.

No início dos anos 80, os equipamentos “populares” começavam a se sofisticar. Surgiram os radiogravadores estéreo (1982) e os microsystems (1983). Alguns desses últimos, como o MS-9, da CCE, traziam recursos que até então só se viam nos equipamentos de som modular, como o tape-deck com seletor de fitas (normal, cromo/ferro-cromo e metal) e sistema de redução de ruído Dolby B. Ainda se enquadravam no conceito modular, pois suas partes – receiver e tape-deck – podiam ser desacopladas e estavam conectadas entre si por cabos RCA.

Com o passar do tempo, no entanto, esses microsystems foram se integrando cada vez mais e perdendo recursos. Na prática, ocuparam o espaço dos antigos três-em-um. Os equipamentos modulares, por sua vez, acabaram perdendo espaço para os home-theatres (ou home-theaters, na grafia americana). Estes últimos usam tecnologias com múltiplos canais de áudio, em vez dos dois canais do estéreo (esquerdo e direito) e um subwoofer mono. Parece que a explicação para o subwoofer mono é que o ouvido humano é absolutamente incapaz de perceber a direção de sons mais graves, por isso não compensaria ter um subwoofer para cada canal. Não sei se é verdade, mas, se for, faz sentido.

Poucas lojas ainda comercializam equipamentos de som modular – hoje, importados, já que a indústria nacional regrediu. Os gravadores de CD de áudio, por exemplo, ficaram pouco tempo no mercado brasileiro. Toca-discos de vinil tornaram-se equipamentos caríssimos, usados apenas por DJs profissionais. Quem quer comprar som modular hoje é obrigado a recorrer às lojas de equipamentos usados.

Há também um vácuo de tecnologias. As fitas cassete caíram em desuso, mas o gravador de CD de áudio não pegou, nem o minidisc. Quer gravar um programa da Lúmen, da Mundo Livre ou da 91 Rock? Só se você ligar a saída do seu equipamento de som na entrada de áudio do computador. Ou gravar o streaming das emissoras. Ou ainda comprar um microsystem que permita gravar de FM em arquivos MP3 (sim, isso já existe).

Situação semelhante ocorre com as tecnologias de gravação de vídeo. O VHS morreu e deixou um vácuo: o SuperVHS não pegou e os gravadores de DVD de mesa (não confundir com os SuperDrives, que gravam CDs e DVDs nos computadores) eram muito caros. Agora que os gravadores de DVD estão ficando com preços acessíveis, chega uma tecnologia nova, o BluRay Disc. Só que, de novo, os fabricantes privilegiam os aparelhos “burros”, que só leem os discos, sem permitir que o consumidor faça o principal: gravar os programas.

Talvez aqui, novamente, o computador seja a solução. Além de um Mac (ou PC, para quem se contenta com a mediocridade do Windows só porque “quase todo mundo usa”) no escritório, o consumidor deve comprar outro para usar como central de mídia, gravando seus programas de TV e de rádio preferidos.